Depoimento

Um museu feito para nós, por nós

Cláudia Tosi posa ao lado das obras cuja produção ela orientou

Cláudia Tosi posa ao lado das obras cuja produção ela orientou

Quando fui convidada a ser arte educadora por Juliana Siqueira, idealizadora do projeto “Um museu feito para nós, por nós” a ser realizado no MIS – Museu da Imagem do Som – com a parceria do Centro Cultural Louis Braille de Campinas e apoio das Secretarias de Cultura e dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, dando oportunidade de inclusão às pessoas portadoras de deficiência visual e auditiva, imediatamente me encantei.

Em que momento da história de nosso país, pode-se constatar tamanha integração entre pessoas, com respeito e amorosidade, em que diferenças humanas são diluídas pela cultura e boa vontade, transformando a igualdade em realidade e prazer?

Num museu onde a prática principal é a informação visual e sonora, traz-se através da arte, o fazer, por obras com técnicas variadas, a expressão de pessoas cegas e surdas que se autorizam artistas.

Isto é de fato uma grande transformação. A transformação do ser que se apropria de seus talentos criativos e que se lança às experiências da vida, que se permite esquecer individual e se transforma em escultura, porquanto sua escultura é sua identidade naquele momento.

Assim é a arte. Sua função é o meio de comunicação entre o coração e o pincel. É a fala entre a alma e o giz de cera.

A principal beleza deste projeto, está no embate com a antítese das crenças sociais. Nele, não há cegueira, não há escuridão. Não há surdez, não há silêncio. O antagonismo das diferenças é amorosamente transmutado por cores, formas, sons e musicalidades, elementos essencialmente intrínsecos à alma humana. É portanto, um projeto para a alma, muito além das limitações do corpo.

Se cuidarmos do espírito do ser, se o nutrimos com cultura de qualidade, qualquer transformação se torna viável, porque abrimos possibilidades de caminhos infinitos.

Vi pessoas chegarem com depressão, sem perspectivas de vida. O caminho era apenas o da institucionalização. Internamente, não haviam meios. Vi pessoas que acanhadamente mal pegavam num lápis, porque não se diziam artistas e não se sentiam no direito de tal. Vi pessoas quase inertes, distônicas, porque se sentiam muito frágeis ante o próprio existir.

Então, a mágica aconteceu.

Com um punhado de areia fizemos desenhos no centro da cidade de Campinas. Produzimos uma instalação efêmera e tomamos posse desta que nos pertence. Com tecidos coloridos, dançamos a celebração da vida. Fizemos fotogramas com imagens de sentimentos. Desenhamos, pintamos, criamos esculturas e, nestas instâncias, a arte deu voz, abriu horizontes, ampliou os olhares do intelecto e permitiu a definitiva ressignificação.

Agora, o que antes era depressão, é lugar de metas de vida. Os movimentos da dança, são movimentos para a vida. A música traz agora, o ritmo das potencialidades. A fotografia retrata, a partir de então, paisagens de novos destinos, porque como dizem os participantes acolhidos pelo projeto: “somos todos artistas!”.

Nunca mais este museu será o mesmo, porque todos nós que participamos desta vivência, não somos mais os mesmos. Abençoados pela arte, somos todos artistas, somos todos semelhantes.

Claudia Tosi

Arte educadora do projeto “Um museu feito para nós, por Nós”.
Designer e Arteterapeuta em final de especialização.
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